Allmaria

Esta semana ocorrem dois eventos bastante importante para o contexto do mercado brasileiro:  A Expert, evento da Xp investimentos trará bastante conteúdo sobre o cenário econômico mundial e um viés mais direcionado ao contexto de investimentos tradicionais. Na ilha de Florianópolis o papo já será concentrado no ecossistema de startups durante o Startup Summit, evento realizado pelo Sebrae, Acate e Acif, que constroem este que é um dos principais eventos do ecossistema nacional.

Serão discutidos diversos temas, que auxiliam a ter uma visão mais clara sobre o momento que enfrentamos e as expectativas do mercado para os próximos períodos, além de ser a oportunidade de ouvir sobre a forma de trabalho de alguns profissionais do mercado. No Startup Summit compartilharei no palco principal um pouco do que venho trazendo neste conteúdo semanal, que é a minha lógica de análise de pitchs e decks de startups. Minha proposta compartilhando estas informações está em ajudar as 2 pontas: O investidor para saber como avaliar e eventualmente investir em startups e o empreendedor que entendendo como o outro lado pensa, pode se preparar da melhor maneira possível.

Nesta semana, a startup analisada será a Allmaria, uma plataforma de full-commerce que basicamente busca digitalizar o processo de vendas em toda o mercado de vestuário. A startup está buscando um cheque R$ 1,5 milhões por 6% do negócio, será que está uma rodada atrativa?

Por fim, trarei algumas startups que estão sob o meu radar de acompanhamento e também um breve overview do mercado nesta última semana.

Como sempre gosto de ressaltar, minhas análises aqui não são recomendações de investimento, assim como o fato de o João Kepler dizer que não investiria, não significa que a Startup não é “investível”. Meu foco é compartilhar conhecimento e apresentar as novidades dentro do ecossistema de startups.

Abraço e boa leitura.

1. ANÁLISE DECK

STARTUP: Allmaria

A Allmaria tem uma missão de digitalizar a venda de diversas marcas de vestiário feminino, de forma que oferta os produtos diretamente em seu ecommerce, mas também uma listagem nos principais marketplaces do mercado. Opera com um modelo de cross-docking, ou seja, primeira executa a venda, depois realiza a compra com o parceiro para efetuar o envio.

Problema

O problema apontado pela startup é que atualmente no Brasil existe um elevado número de confecções e pequenas marcas de roupa que possuem dificuldade de realizar vendas online, seja por falta de conhecimento técnico como também por falta de recursos para investir neste canal. Entretanto, apesar das pequenas marcas não conseguirem estar presente, o consumidor está cada vez mais migrando para esta forma de consumo, fazendo com que os vendedores que não conseguem aproveitar este canal tenham piores resultados. Sem dúvidas é um problema relevante em um timing de crescimento de mercado muito bom, entretanto, estes fatores fizeram com que surgissem muitas soluções querendo resolver problemas próximos, já me chama atenção a alta necessidade de um fator de diferenciação na solução da startup.

Problema

Solução

A solução da Allmaria tem o objetivo de resolver a dor de ponta a ponta, ou seja, trazem o ponto de que a dificuldade destas marcas é anterior ao processo de venda em si, portanto, parte da solução inicia com a digitalização das peças que as marcas desejam ofertar, depois então fazem o cadastro do produto nos principais marketplaces e ecommerces nacionais, por fim cuidam do processo logístico. O modelo sofre uma pequena variação, que pode ser tanto uma solução de intermediação, monetizando com um fee por pedido, como também um modelo onde a Allmaria compra do fornecedor e vende ao comprador, ficando assim também responsável pela parte fiscal. Fiquei intrigado para entender melhor o processo que a startup executa de digitalização das peças, um receio de que isso recaia para serviço, dificultando o ganho de escala. Mas de fato é uma solução com proposta de valor alinhado ao que apontam de problema, mostrando que focam em resolve o que estão indicando.

Mercado

A apresentação do mercado reforça o apontado no problema, no Brasil existem cerca de 100k confecções, que movimentam um mercado multibilionário. Atualmente focam no mercado de vestuário feminino, mas já indicam um potencial de expansão incialmente para calçados e beleza, além ainda do mercado masculino e infantil, que praticamente dobraria o tamanho de mercado atual. Senti falta de uma melhor segmentação de acordo com os nichos e potenciais de atingimento mais factíveis. A visão do mercado ficou muito ampla, apenas destacar o tamanho total, principalmente de algo como vestuário, deixa muito vago para a análise.

Mercado
Concorrência

Concorrência

O cenário competitivo foi um ponto que destaquei no inicio desta análise, já existem diversos players, principalmente com a proposta de hub de marketplaces, que tem o objetivo de facilitar justamente esta jornada de venda digital. Na visão trazida pela startup, trazem uma ótica interessante, de que eles não estão concorrendo diretamente com os hubs e marketplaces, mas sim que é parceiro dos mesmos, de forma que busca atuar na ponta com as PMEs para fazer a transformação digital, que pode ser plugada com algumas destas outras soluções de mercado.

Resultados

Os resultados da startup deixam claro o fato de não recorrência e até mesmo de uma questão cíclica na variação da receita, sem ainda deixar nítido uma tendência de evolução positiva nos resultados. As projeções me chamam a atenção por imaginarem um cenário bastante diferente do realizado em um plano bastante agressivo, seria interessante um maior aprofundamento neste sentido para ter uma visão mais clara de como irão entregar o que estão se comprometendo. Além disso, neste ponto de receita é importante lembrarmos do modelo, visto que em grande parte dos casos eles compram do vendedor para depois realizar uma nova venda, esta seria a receita bruta, que ainda precisa ter o desconto do custo do produto vendido. As métricas apresentadas na lateral trazem alguns indícios de validação, apresentando que já tiveram mais de 20k SKUs, com 40 marcas conectadas, plugando em 15 marketplaces diferentes.

Resultados
Time

Time

A startup parece ter um time bastante complementar e experiente, principalmente o track record em varejo, com destaque para a Mobly, que figura no histórico de 4 dos 6. As principais áreas chaves do negócio são cobertas pelo time, que parece ser bastante insider dentro do que estão realizados, sem dúvidas um dos principais pontos deste negócio até então, ganharam bastante pontos aqui.

Rodada

Estão levantando uma rodada de R$ 1,5 milhões por 6% do negócio, resultando em um valuation de R$ 25 Milhões, destacando que parte foi captada de maneira direta com investidores externos, também players do mercado que a startup está inserida e parte está sendo levantado via equity crowdfunding. Trouxeram poucas informações no deck sobre o use of proceeds, olhando em alguns outros dados disponíveis na pagina da oferta é possível verificar que o grande foco está na parte comercial, explicado pela busca agora em ganhar escala com a solução e também na parte de produto, que evidência o estágio relativamente early, ainda precisando de grande esforço para melhoria da solução.

Rodada

Conclusão

O modelo que a startup vem buscando é bastante objetivo frente a dor que destacam no mercado, entretanto, me levantam algumas dúvidas. O primeiro ponto é em relação á concorrência, sem dúvidas, se posicionarem como complementares á alguns players, principalmente os hubs de marketplace, parece uma tentativa de esquivar deste questionamento, mas entendo que acabam disputando um mercado semelhante. O ponto de destaque do negócio que é focado na digitalização na ponta, acaba sendo um diferencial apoiado em serviço, ou seja, algo não escalável e com grandes dificuldades de crescer tão quanto á perpetuidade do negócio.

Em contrapartida, um ponto bastante favorável ao negócio são os números obtidos até então. Nos últimos 12 meses o negócio chegou próximo á R$ 4 milhões de faturamento bruto, com uma margem após a dedução dos custos dos produtos vendidos de 50%, logo, uma receita líquida de aproximados R$ 2 milhões. Obviamente que neste modelo precisamos levar em consideração o efeito cíclico da receita, que majoritariamente é não recorrente e sofre dos mesmos impactos que observamos no mercado de varejo. Um ponto bastante relevante á ser considerado na precificação do negócio.

Por fim, o grande ponto positivo e de destaque nesta análise é em relação ao time que vem liderando os trabalhos na startup. Os empreendedores aparentam ser bastante experientes e insiders do mercado varejista, fator que influencia diretamente na avaliação do negócio. Neste estágio que ainda se encontram, o qualitativo dos founders é um uma das questões de maior peso para uma decisão final.

Para complementar, utilizei minha ferramenta de valuation para ter uma visão de “preço” do negócio. Importante ressaltar que pela parte financeira realizada ser pouco significativa, a avaliação de valor do negócio pode se pautar em aspectos mais qualitativos, aplicando pela minha plataforma cheguei ao seguinte resultado:

Conclusão

Esse valuation é o pre-money, considerando o round de R$ 1,5M, o valuation post-money neste caso seria de aproximadamente R$ 20M, aproximadamente 20% inferior ao proposto pela startup na rodada, Neste caso, entendo que pelo fator cíclico e as características do modelo de negócio, o valor pedido pela startup estão acima do que considero ideal. Acredito que estejam colocando um incremental neste múltiplo para “precificar” o qualitativo vindo do time de founders. Caso queira testar ou utilizar a minha ferramenta, ela está disponível pelo link:

Considerando todos os pontos apresentados, apesar de enxergar um grande mercado potencial, e um time de founders com bastante capacidade de liderar o negócio, tenho alguns receios quanto á concorrência enfrentada e o tipo de modelo de negócio que praticam. Talvez enfrentem algumas dores para gerar valor na ponta, o que pode forçar um aumento do custo de marketing para atrair novos vendedores. Além disso, o valuation é um pouco acima do que considero ideal, portanto, visto estes fatores, é um deal que eu pessoalmente optaria por não dar seguimento em minha composição de portfóliol

Desejo grande sucesso a todo time da Allmaria em sua captação no site da Captable e quem desejar analisar mais detalhes ou até mesmo aportar nesta oportunidade, pode acessar o deal pelo link abaixo:

Lembrando, essa não é uma recomendação de investimento e é fundamental que você sempre realize as suas próprias análises antes da tomada de decisão.

Recomendação Técnica - Eleven Research

Com os juros subindo por todo o mundo para conter o avanço da inflação elevada, investidores estão mais cautelosos na alocação de seus recursos e migrando para ativos de menor risco que hoje estão com boas perspectivas de investimento. Na indústria de fundos de investimento no Brasil, estamos acompanhando uma forte migração de recursos de fundos de ações e multimercados para a renda fixa. Esse movimento tem impactado negativamente a bolsa de valores, pois os fundos muitas vezes precisam desfazer de suas posições para fazer frente aos resgates solicitados. No universo de startups, seed money, venture capital e private equity não tem sido diferente.
O Venture Monitor divulgado recentemente pela PitchBook em parceria com a Insperity e o J.P. Morgan registra que não importa o meio, os investidores têm sido consistentes em dizer que ocorreu uma desaceleração em todos os estágios das empresas investidas, não apenas nos tamanhos e valuations, mas também na atividade. Aqui no Brasil temos acompanhado diversas startups que inclusive passaram por rodadas de investimentos recentes precisando ajustar sua estrutura reduzindo o quadro de funcionários. Foi o caso da healthtech Alice. Por outro lado, essa é uma fotografia do cenário atual e não o enredo do filme todo. Acreditamos que existem oportunidades relevantes mesmo diante do cenário atual.
Com relação a Lincon, consideramos o segmento de atuação atrativo pois o setor de saúde ainda possui grandes ineficiências, o que deixa amplo espaço para o desenvolvimento de healthtechs. Porém, no caso da Lincon, mesmo com o avanço significativo da telemedicina no Brasil pós-pandemia, vimos que o segmento já possui players em estágio mais avançado de maturidade enquanto a Lincon ainda não definiu seu modelo de monetização do negócio. Segundo o vídeo do CEO Victor Navarrete disponível na plataforma Kria, o uso dos recursos da oferta é justamente para definir o foco do modelo de negócio da startup. Apesar de gostarmos da experiência dos principais executivos, a busca do modelo de negócios deixa o risco/retorno desproporcional nesse momento em nossa visão, portanto, não recomendamos a entrada nesse estágio. Mesmo com parceiros de renome como Dasa e Panvel, acreditamos que a operação da Lincon faça mais sentido para operadores de planos de saúde que tenham foco em medicina preventiva e acompanhamento de grupos de risco específicos dos segurados.

2. CINCO STARTUPS TO WATCH

Destaco ainda alguns negócios que me deparei recentemente e acredito que valem a atenção de todos:

1) Geekhunter

Plataforma de contratação voltada especificamente para o nicho de tech, setor com grandes gargalos neste momento. 

2) Tul

Ecommerce com foco em ser o canal atacadista para o varejo da construção civil. Buscando uma logística eficiente e custos reduzidos.

3) Lexos

Hub de marketplaces para facilitar a gestão e operação em diversos canais de vendas de forma simultânea.

4) Dr. Consulta

Health tech que oferece consultas, exames e serviços de saúde, surfando um momento de alta digitalização no segmento.

5) Team Move

Plataforma que permite digitalização e automação dos processos da gestão de metas e premiações.

3. OVERVIEW DO MERCADO

Definitivamente 2022 já começa a tomar um aspecto de reta final com o início do mês de agosto, agora é aquele momento em que se corre de forma desenfreada para o atingimento das metas definidas para os robustos bônus de final de ano. Alguns fenômenos costumam ocorrer neste período, o primeiro deles é o aumento no número de aquisições, motivado pelo fato das áreas internas de M&A precisarem entregar operações bem-sucedidas, dentro de valores minimamente pré planejados, ponto que aceleram alguns deals que talvez estejam andando em pace mais lento.

O outro fenômeno é um pouco mais indireto para o investidor, mas bastante relevante para o crescimento das startups que é a intensificação na contratação de novos produtos e tecnologias, visto que as áreas de inovação e outras, acabam aproveitando o budget visto como “sobra” para testar novas possibilidades.

São fatores não racionais e não necessariamente suscetível a uma nova ocorrência, entretanto, devem ser ponderados pelos investidores que analisam as startups para seus devidos ajustes no modelo levando em consideração esta movimentação pontual.

Ressaltando o que iniciei o conteúdo desta semana, teremos dois eventos bastante relevante para o mercado nacional e recomendo que fiquem atentos aos conteúdos e overviews que serão divulgados, pois teremos bons insights sobre o que deve ser encarado nos próximos meses deste ano.  

4. PITCH REACT

Quer mais conteúdo em outro formato? Se ainda não conhece e para todos aqueles que já acompanham, não deixe de assistir ao PITCH REACT no meu canal.

Semanalmente as quartas à noite serão apresentados novos vídeos, meu objetivo é mostrar como eu reajo a apresentações de diferentes startups.

A ideia é que, ao mostrar os erros e acertos dos empreendedores – e um pouco da visão do investidor diante deste tipo de apresentação, quem esteja assistindo consiga absorver os aprendizados que precisa para inserir na sua própria jornada.

Se você não quer perder nenhum episódio, não se esqueça de se inscrever no meu canal e ativar as notificações!

Assista ao último vídeo: https://youtu.be/11QsARRKm1c

Se você é uma startup e quer ser analisada e/ou aparecer aqui e ser analisada no The STARTUP Analysis:

Se você é uma startup e quer aplicar para a possibilidade de receber investimento na Bossanova:

Quer ler as ANALISES anteriores:

Esse Report não é uma recomendação de investimento e muito menos pedido de investimento. Antes de investir em Startups é importante observar os altos riscos envolvidos, verificar a legislação e a regulação vigente. Da mesma forma, antes de realizar qualquer investimento, sempre faça as suas próprias análises.